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Etimologia do Casamento

Casamento

O casamento é a mais controvertida instituição humana. Ao lado dos que acreditam nele e torcem para seu sucesso, há uma multidão de desiludidos que só veem nele engano e desilusão. Talvez a opinião definitiva tenha vindo do famoso filósofo Sócrates, que dizia – “Um homem deve decidir livremente entre casar ou ficar solteiro; afinal, vai terminar se arrependendo do mesmo jeito”.

Por conta de sua dinâmica própria, o idioma vai consagrando os seus vocábulos, mas, dadas as distâncias culturais e históricas, vamos perdendo o seu significado de origem e o seu trajeto etimológico. Veja, a seguir, o que nos revela a etimologia das palavras relativas ao casamento.

» Aliança – Vem do latim alligare, “compor, ligar-se a”. Já no português medieval significa um comprometimento mútuo, seja no sentido religioso, político ou jurídico. A partir do séc. 13, aliança passa a significar também “laço matrimonial que une duas famílias”, até que, alguns séculos depois, assume o seu significado atual de “anel de casamento”.

» Bígamo – Do grego bi, “dois”, e gamos, “casamento”. O bígamo mantém dois casamentos simultaneamente, o que é crime no Brasil e nos demais países do Ocidente. Não deve ser confundido com o dígamo, que casa pela segunda vez, ou por ter-se divorciado do primeiro cônjuge, ou por ter enviuvado – o que não constitui crime.

» Casamento – Vem de casar, curioso verbo que, ao que tudo indica, veio mesmo de casa, choupana, pequena propriedade, acrescentando-se a partícula -mentu (do latim vulgar) forma-se o substantivo, que surgiu no século X. Como se depreende pela antiga regência com que este verbo era empregado – no antigo sistema patriarcal, os pais casavam os filhos (em oposição a hoje, em que os filhos se casam), porque para isso eles tinham de ceder uma parte de sua propriedade (casa e terras) para o sustento e a moradia da nova família.

Duas funções importantes da casa: proteger seus habitantes da inclemência do frio e dos incômodos do calor. O casamento, no sentido etimológico, é um “lugar” caloroso, para nos proteger do frio da solidão, e arejado, para nos abrigar do fogo das dificuldades.

Portanto, o antigo provérbio “quem casa, quer casa” não seria, como muitos pensam, um simples trocadilho para indicar que o novo casal precisa de privacidade, mas um resquício do antigo costume medieval. O ato do matrimônio traz o estabelecimento de nova casa. O conjunto de palavras (casal, casado) tem a mesma origem.

» Celibatário – Vem do latim caelebs, “solteiro”. Inicialmente, o termo designava apenas a pessoa que, por sua própria vontade, preferia não casar, muitas vezes por um voto religioso. Era com este significado que o termo aparece nos textos do cristianismo primitivo, quando ainda se discutia se os padres deviam ou não constituir família.

Só mais recentemente é que o conceito de celibatário passou a incluir também a abstinência sexual. Quando usado
com referência a não-religiosos, volta ao seu significado primitivo – solteiro, mas não necessariamente casto.

» Concubina – Vem do latim concumbere, “deitar-se com”. Entrou no português apenas na forma feminina, para designar a mulher que ia para a cama com um homem sem estar casada com ele – ou, como diz o dicionário de Morais (1813) uma mulher “amiga de um só, que não é prostituta”.

A linguagem jurídica utiliza-a no sentido técnico de mulher que vive maritalmente com um homem, sem estar casada. Na linguagem popular, no entanto, o termo adquiriu conotações pejorativas, o que explica por que ele é muito pouco usado para falar das pessoas que vivem juntas, como marido e mulher – prática que se tornou extremamente comum.

» Divórcio – Vem do latim divortium, “separação”, derivada de divertere, “tomar caminhos opostos, afastar-se”. Além de ser usado para designar o rompimento do casamento civil, o vocábulo aparece na interessante expressão divortium aquarum, “separação das águas” – a linha a partir da qual as águas correntes tomam direções opostas – conceito adotado para determinar fronteiras geográficas em regiões onde não há outros pontos de referência. Este foi um dos critérios sugeridos à Argentina e ao Chile para fixar suas fronteiras nos Andes – uma linha virtual baseada no ponto em que se dividem os rios que deságuam no Atlântico e os que deságuam no Pacífico.

» Fidelidade – Do latim fidelitas, vocábulo oriundo do substantivo fides. A palavra fides designava, nos primórdios da língua latina, a “adesão [do devoto aos preceitos de sua religião]”. Na evolução desse idioma, o sentido da palavra se alargou, embora conservando o conceito inicial da adesão positiva a um princípio religioso, sendo ela empregada em diversos sentidos, como, por exemplo, “sinceridade”, “retidão”, “honestidade”, “responsabilidade”,
“confiança”. Em latim, fidelitas significa “aquilo que possui fides“.

» Lua-de-mel – Há mais de 4 mil anos, os habitantes da Babilônia comemoravam a lua-de-mel durante todo o primeiro mês de casamento. Neste período, o pai da noiva precisava fornecer ao genro uma bebida alcoólica feita a partir da fermentação do mel, o hidromel. Como eles contavam a passagem do tempo por meio do calendário lunar, as comemorações ficaram conhecidas como lua-de-mel.

» Noiva – vem de nupta, que quer dizer “coberta”, isto é, com o véu, que na Roma antiga significava submissão ao marido.

» Noivado – A palavra noiva, como já dissemos vem do latim nupta, “coberta, ou no sentido de “casada, esposa”, com influência, segundo parece a alguns, do adjetivo nova, que em latim é novia. Portanto, originalmente falava da mulher. Desta origem derivaram-se posteriormente os vocábulos noivo, noivar e noivado.

O noivado obedece a procedimentos culturais, recebendo nuances do lugar e contexto. Em nosso contexto brasileiro, por exemplo, tem-se por convenção cultural o uso de alianças (anéis) no dedo anular da mão direita no período de noivado.

» Núpcias – Mesma origem, de nupta. O conjunto de palavras (núpcias, nupcial) passou a descrever os atos e cerimônias envolvendo o evento das bodas. É uma daquelas palavras que só empregamos no plural (como parabéns, condolências ou pêsames). Vem do latim nubere, “casar”, de onde se derivou nuptiae, “bodas”; refere-se, portanto, ao momento em que o casamento é contraído, o que nos permite falar em marcha nupcial, noite de núpcias, leito nupcial. Na Biologia, emprega-se voo nupcial para o voo do acasalamento dos insetos.

» Nubente – Origem no latim nubente, do verbo nubere, que significa “cobrir ou velar”, isto é, pôr véu em si mesmo. Portanto, referia-se à mulher. Posteriormente, o vocábulo nubentes passou a descrever o casal em núpcias.

» Solteiro – Vem do latim solitarius, “só”, que também produziu o nosso solitário. Nos dias atuais, em que impera o politicamente correto, os dicionários definem o termo como “aquele ou aquela que ainda não casou”. Nosso primeiro grande dicionarista, o padre Bluteau (séc. 18), no entanto, ainda podia dizer inocentemente que solteiro era “a mulher e o homem que não são casados, e, como tais, vivem soltos e livres do jugo do matrimônio”. Como se vê, uma opinião nada favorável do casamento.

» Namoro – Na língua portuguesa, o verbo “enamorar” (preposição em + substantivo amor), pelo que se sabe, é verificado no século XII, e adquiriu o sentido de “cortejar”, “cativar”, “afeiçoar-se”. Daí os vocábulos enamorado, namorado. Quanto ao substantivo “namoro”, é verificado apenas no final do século XIX.

» Matrimônio – O conjunto de palavras (matrimônio, matrimonial) tem origem no latim. A palavra procede de duas outras – mater (mãe) e uma inflexão de patrimonium. A ideia original é de uma “maternidade legal”, isto é, descreve a mulher casada. Observe que patrimonium tem origem em pater (pai), descrevendo as coisas (res) que legalmente pertenciam ao paterfamilias.

» Desposar – Na língua portuguesa este conjunto de palavras (esposo, esposa, desposar, etc.) tem origem latina em sponsio, que significa “promessa solene”, “compromisso”. “Desposados” eram aqueles que fizeram promessa solene de casamento, isto é, originalmente os noivos. Tardiamente o conjunto de palavras passou a descrever as promessas do casamento, apontando para aqueles que contraíram núpcias. A palavra promessa é chave neste conceito.

» Bodas – A origem encontra-se em bodo, palavra arcaica em português – a palavra ainda consta do Dicionário Aurélio, mas com um significado derivado. Bodo vem do latim votum, que significa “voto, promessa feita aos deuses”. Votum também passou a descrever o objeto votivo, a oferenda. O vocábulo bodas passou a significar os votos pronunciados por ocasião do casamento; depois também a reiteração ou celebração de aniversário desses votos.

» Conjugal – O verbo jungir é “colocar sob um mesmo jugo”. E com esta ideia (com + jugo) relaciona-se o nosso conjunto de palavras em português (cônjuge, conjugal, etc.).

Este foi o verbo utilizado na conhecida expressão “o que Deus jungiu, não o separe o homem”. A concepção cristã, ali, é que quem casa coloca-se debaixo do jugo, toma o jugo. E esta união sob um mesmo jugo transmite a ideia de que ela visa cumprir determinados objetivos e deveres comuns, isto é, alvos, propósitos ou trabalhos que ambas as pessoas tomam a responsabilidade de cumprir como um casal – tal como dois animais “jungidos” cumprem juntamente o serviço que deles é exigido.

A figura de um “jugo” pode parecer uma linguagem tosca e rude, ou pouca romântica, especialmente às mentes e sensibilidades modernas. Entretanto, é uma ideia encontrada muito antiga.

» Marido – Origem em marito, vocábulo que significa “emparelhado, unido, casado”. Segundo os antigos latinos, relaciona-se com mas, isto é, “macho”, “do sexo maculino”. A palavra descrevia o noivo ou esposo, e também “macho” quando se referia aos animais. Em resumo, a palavra descrevia a parte masculina do par. Na história do Direito de Família verifica-se a instituição chamada “autoridade marital”. Mais tarde o conjunto de palavras (marido, marital) equiparou-se a conjugal.

» Homem – Alguns estudiosos identificam a relação entre os termos homo e humus. Humus é terra, solo. Daí adviria o conjunto de palavras (humano, humanidade). Hominis seria o nascido da terra, do pó, do solo. Adquiriu o sentido de racional, em oposição a bestia ou fera; por oposição aos deuses, ser humano, mortal; por oposição a mulher, o homem, ser masculino da espécie humana; por oposição aos mortos, ser vivente, vivo.

» Mulher – O latim é mulier, discute-se o significado original. Segundo alguns estudiosos, mulier é a palavra proveniente de mollier que significa mais mole, mais delicado, mais suave, tenro. Daí a ideia do “sexo frágil”, que, não obstante, é mais forte do que o homem em muitas coisas, diga-se de passagem.

Em hebraico, conforme a narrativa bíblica da criação da espécie humana, a palavra mulher (ishá) é a mesma palavra homem (ish) acrescida de apenas uma letra, transmitindo a ideia bíblica de que ela procede do homem, e que, embora diferente, compartilha como ele de uma essência comum. Daí as antigas traduções bíblicas traduzirem as palavras hebraicas por “varão” e “varoa”, a fim de manter o mesmo radical nos vocábulos.

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