Dos nós e entalhes até o alfabeto

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Por que a escrita foi tão importante?

A escrita é um dos principais aspectos que distinguem a fase da evolução humana conhecida como civilização – a vida baseada no civis, termo latino para o habitante da cidade. Com o seu desenvolvimento, as pessoas puderam estender a sua influência a áreas muito mais amplas e transmitir conhecimentos de uma geração para a seguinte.

Nas pequenas comunidades, a comunicação é possível pelo contato pessoal Mas quando a população atinge um certo nível de complexidade, tanto em termos tecnológicos quanto sociais, os contatos pessoais já não são suficientes. A multiplicidade exige uma comunicação escrita formal, duradoura e compreensível por um grande número de pessoas.

O desenvolvimento da escrita deu ao homem a possibilidade de se comunicar sem falar. Os dirigentes podiam enviar instruções a grandes distâncias sem terem que depender da memória de mensageiros. Podiam fazer registros de objetos, acontecimentos e pensamentos que seriam relembrados com exatidão anos mais tarde. A sabedoria acumulada das civilizações seria compreendida pelas populações futuras. Começava então a história.

Uma vez inventada, a escrita estimulou uma complexidade social ainda maior, com implicações em todos os aspectos da sociedade.

Através dos tempos. Alguns métodos de registro de informações concebidos na Pré-História sobreviveram até os tempos modernos. No século XIX, alguns índios norte-americanos ainda utilizam pictogramas para representar objetos, ideias ou informação numérica. Mais recentemente, os aborígenes australianos usavam bastões de marcação com entalhes ou desenhos.

Como se mantinham registros antes da escrita?

Os registros mais antigos – ossos com entalhes – remontam a cerca de trinta mil anos. A descoberta de que a sequência de entalhes em muitos desses ossos foram feita durante um certo período de tempo levou alguns especialistas a deduzirem que os ossos eram usados como marcadores para registrar, por exemplo, cabeças de gado, número de guerreiros ou fases da Lua. Um processo mais avançado de contagem eram os cordões com nós, método bastante desenvolvido pelos incas na América do Sul.

O sistema de cordões coloridos e nós usado pelos incas, embora bastante restrito, era suficientemente sofisticado para ajudar a administrar um império de 775 mil quilômetros quadrados.

Os desenhos forneciam informações mais específicas. Algumas tribos índias norte-americanas deixavam desenhos de canoas, veados e tendas feitos em casca de vidoeiro no exterior das suas tendas para informar eventuais visitantes para onde tinha ido e o que estavam fazendo. A princípio, estes desenhos representavam objetos facilmente reconhecíveis; mas em pictogramas mais aperfeiçoados, as figuras podiam ser utilizadas de forma abstrata ou combinadas de modo a formar conceitos mais complicados. Nas primeiras inscrições sumérias, a imagem de uma boca também significava “falar”, e uma montanha e uma mulher juntas significavam “jovem escrava”, talvez por ser possível capturar escravas nas montanhas.

Estes sistemas eram limitados quanto à variedade de conceitos que podiam transmitir e, por isso, tornavam-se insuficientes para sociedades cada vez maiores e dependentes de instruções mais pormenorizadas e complexas.

Cordões com nós. Os incas não conheciam a escrita, mas inventaram um método de registrar a informação com cordões e nós. Cada peça, ou quipo, consistia num cordão principal ao qual se ligavam no máximo cem cordões coloridos. Embora o código não tenha sido decifrado, pensa-se que o cordão, o nó e o seu espaçamento tinham significado próprio.

Quando foi inventado o alfabeto?

Acredita-se que todos os alfabetos do Mundo derivam de um alfabeto principal, o semítico setentrional, que surgiu por volta de 1700 a.C. entre os povos de língua semítica da região da Síria e da Palestina. Antes da invenção do alfabeto, a escrita consistia em simples pictogramas ou sinais silábicos, em que cada símbolo representava uma sílaba específica. Como a língua usa centenas de sílabas, isto significava a memorização de centenas de sinais.

A grande revolução ocorreu quando se compreendeu que as sílabas são compostas de um número relativamente pequeno de sons elementares. A maioria das línguas não tem mais do que vinte ou trinta desses sons: o sistema alfabético baseia-se na utilização de um símbolo para cada som. Os nomes dados a esses símbolos eram os dos objetos nos quais se baseavam.

As vogais, presentes dos gregos

Por volta de 1050 a.C., o povo da Fenícia utilizava um alfabeto de 22 letras. Os fenícios encontravam-se no centro da rota do comércio que compreendia o norte e oeste até a Grécia, o sul até o Egito e o leste até a Mesopotâmia. O alfabeto fenício foi difundido na Europa pelos gregos, que lhe acrescentaram um conjunto completo de vogais. Todos os atuais sistemas de escrita ocidentais derivam do alfabeto grego. Na Europa Oriental foi adaptada uma versão do alfabeto grego, dando origem ao cirílico; uma outra versão evoluiu para o romano moderno ou escrita latina. As primeiras inscrições latinas datam do século VII a.C.

O sistema cuneiforme e os hieróglifos eram dominados exclusivamente por escribas  altamente treinados. Com o alfabeto, muito mais pessoas puderam ler e escrever. Os slogans eleitorais nas muralhas de Pompéia mostram o avanço da alfabetização no início da era cristã.

Escritas que guardam segredos

Apesar do êxito na decifração de escritas antigas, algumas ainda se mantêm obscuras. Entre estas estão os trezentos sinais utilizados pelo povo do vale do Indo há quatro mil anos e a escrita chamada Linear A, utilizada em Creta de 3000 a 1100 a.C.

Os maias, da América Central, tinham por volta de 250 d.C., uma escrita complexa com cerca de 850 símbolos pictóricos. Parece existir ligações entre esses sinais e os atuais dialetos dos maias.

Formas de escrever

As civilizações antigas mostraram grande engenho ao inventar maneiras de escrever. As primeiras inscrições, os pictogramas, eram esboços simples de objetos familiares. Estes evoluíram, de acordo com os instrumentos e superfícies de escrita, para símbolos com frequência pouco semelhantes ao desenho original.

Mesopotâmico: Uma cabeça de boi estilizada passou a ser gravada de lado à medida que os escribas reduziam a imagem em traços com forma de cunha.

Egípcio: Os hieróglifos para “boi” incluem uma imagem pictórica e um símbolo fonético, ka, representado por dois braços. A partir de 2500 a.C., usavam-se os hierógrafos cursivos, mais fluidos, e os símbolos hieráticos, ou “sacerdotais”, para escrever sobre papiro. Em torno de 650 a.C. surgiu a escrita demótica, ou “popular”, ainda mais simplificada.

Chinês: Na dinastia Shang usava-se um símbolo pictórico para representar o “boi”. Com a criação do pincel, a imagem foi simplificada para uma série de linhas retas.

Dos símbolos pictóricos ao alfabeto

Os primeiros passos até o alfabeto começaram com símbolos para reproduzir não apenas objetos, mas também o som dos objetos representados. Vários símbolos usados em conjunto formavam palavras novas, e cada um deles evoluiu para uma letra diferenciada do alfabeto. À medida que os alfabetos se afastavam da sua fonte comum, as três primeiras letras, ilustradas abaixo, tomavam formas diferentes.

Romano: Os sistemas de escrita surgiram no Oriente Médio cerca de 1000 a.C. foram a base dos caracteres gregos, origem do atual alfabeto ocidental. A palavra “alfabeto” vem dos dois primeiros caracteres semíticos: aleph, “boi” e beth, “casa”. Os gregos acrescentaram símbolos para as vogais e estabeleceram  leitura da esquerda para a direita.

Cirílico: O alfabeto de 43 letras hoje utilizado para escrever em russo, búlgaro, ucraniano e sérvio evoluiu a partir do alfabeto grego durante o século IX.

Árabe: O alfabeto de 29 consoantes e 14 vogais usado no mundo islâmico evoluiu do aramaico, um dialeto semítico setentrional, talvez a primeira língua dos Evangelhos.

Hebraico: O alfabeto do Antigo Testamento compõe-se das 22 consoantes derivadas do semítico setentrional, mas não tem vogais. Era escrito da direita para a esquerda.

Devanagárico: O principal sistema de escrita de várias línguas indianas, incluindo o sânscrito, é formado por 48 sinais e acredita-se que derivou também do semítico.

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