Milhares de línguas faladas por pequenos grupos de pessoas, como muitas línguas crioulas surgidas nos últimos séculos, estão à beira da extinção. Mas uma língua pouco conhecida, falada em um punhado de ilhas perto da costa da Venezuela, talvez seja uma exceção.

O papiamento, uma língua crioula que ao longo dos séculos recebeu a influência de escravos africanos, mercadores sefarditas e colonos holandeses, é atualmente falada por apenas cerca de 250 mil pessoas nas ilhas de Curaçau, Bonaire e Aruba. Mas, em comparação com muitas outras línguas híbridas crioulas que foram surgindo nas colônias, mostra raros sinais de vitalidade e de aceitação oficial.

Os jornais de Curaçau são publicados em sua maioria em papiamento. As lojas de discos têm negócios florescentes com CDs gravados em papiamento por músicos, como o cantor de protesto Oswin Chin Behilia ou a cantora de jazz Izaline Calister. Das cerca de 30 estações de rádio do lugar, quase todas transmitem em papiamento. Os parlamentares debatem em papiamento. As lojas de livros vendem romances e coletâneas de poesia em papiamento. A televisão também transmite em papiamento.

A língua local foi oficializada por lei em 2007, ao lado do holandês e do inglês. Foi uma enorme distinção para uma linguagem crioula, raramente concedida em outros países.

Os linguistas afirmam que a persistência do papiamento destaca-se num momento em que muitas línguas crioulas enfrentam a ameaça de serem engolidas por idiomas predominantes no mundo, como o inglês ou o francês. As definições variam, mas as crioulas são consideradas em geral línguas reestruturadas, formadas nos últimos séculos pelo contato com as línguas coloniais como inglês, português ou árabe.

Estudiosos, escritores e compositores de Curaçau afirmam que a capacidade de adaptação do papiamento tem suas raízes numa mescla de políticas radicais e planejamento pragmático. Eles costumam vincular o renascimento da língua a um violento levante contra os símbolos do poderio holandês em 30 de maio de 1969, conhecido na ilha como “Trinta di Mei”.

As origens do papiamento fascinam os linguistas; ele surgiu em uma colônia holandesa, mas seu vocabulário básico é uma mistura de português e espanhol. Alguns estudiosos afirmam que o papiamento evoluiu de uma língua franca com base no português, usada outrora na África Ocidental, e se desenvolveu posteriormente no século 17.

Qualquer que seja sua origem, o papiamento de hoje lembra um pouco a cantada do português do Brasil, com vocábulos em holandês e inglês, mas também em grande parte em espanhol da Venezuela.

As pessoas que falam papiamento frequentemente empregam um linguajar um tanto obsceno que pareceria fora de lugar nas páginas de um jornal, mas não nas ruas de Curaçau. Além disso, os habitantes da ilha são em geral notáveis poliglotas, falando fluentemente papiamento, holandês, inglês e espanhol. Aprenda Papiamento aqui.

Tradução de Anna Capovilla / Publicado em Estadão