Ao se libertar da Inglaterra, a Índia tentou fazer do Hindi a língua nacional. Mas para o Sul do país, até o idioma do ex-colonizador era melhor do que o do Norte.

A maior colônia britânica na primeira metade do século 20 era uma região do sul da Ásia com o formato da cabeça de um elefante habitada por inúmeros povos sem uma língua em comum. Em 1947, ela se tornou independente. As duas orelhas viraram o Paquistão (até uma guerra transformar a orelha do leste em Bangladesh). A testa e a tromba viraram a Índia. E disso sobrou um problema: seu idioma oficial.

Por séculos, o hindi – um dialeto indo-ariano falado em Délhi – servia de língua franca no populoso Norte. Mas não na tromba do elefante, cujas línguas dravidianas não têm nenhuma relação com o hindi. Para o sul da Índia, portanto, impor o hindi seria uma forma de dominação. Perto disso, o inglês – que já era usado no comércio, na política e na vida acadêmica – parecia mais neutro. A solução foi dar um jeitinho: tanto o hindi quanto o inglês seriam oficiais. A ideia era que o inglês sumisse aos poucos. Mas o que aconteceu foi um acasalamento entre os dois.

Na população geral, o governo conseguiu emplacar o híndi por meio do sistema educacional, paralelo às línguas regionais. O segundo passo foi preencher as lacunas do vocabulário hindi com neologismos vindos do sânscrito. Ecycling (“reciclagem”), por exemplo, virou punarchakran – que usa o mesmo chakra (“ciclo”) das aulas de ioga, “Mas a urgência e a intensidade tornaram o esforço indiano bastante artificial”, diz Richard Snell, diretor do programa de hindi e urdu da Universidade do Texas. Resultado: esses neologismos viraram piada na Índia urbana. Entre esse grupo – que vê o inglês como ponte para o mercado de trabalho em empresas que prestam serviços ao exterior – o hindi se misturou ao inglês com toda a força.

O cinema de Bollywood tem títulos como Love Khichdi (algo como “Caldeirão de Amor”). Em programas de auditório, a cada frase em hindi surge um let me tell you (“deixa-me te dizer”). E jovens de classe média se esbaldam em híbridos poéticos como chaddy buddy – amigo de infância, ou literalmente “amigo de cueca”. Isso não quer dizer que o inglês superará o hindi. Fora da classe média urbana, o hindi virou, de fato, a língua franca. O jornal em inglês mais vendido está atrás de 5 jornais em hindi e 2 em línguas regionais. E os televisores, presentes hoje em 61% das casas, transmitem programas nacionais em hindi. E se um tâmil e uma bengali se casarem, a saída vai ser o hindi – goste ou não.

Hindi

Com a independência do país, buscaram-se tirar termos ingleses e inventar novos, com raízes sânscritas.

Entrou – aandolan (“oscilação”)
Saiu – movement (“movimento” social ou religioso)

Entrou – raashtrapati (“pai da nação”)
Saiu – president

Tenta entrar – aakaashvaani (“voz do céu”, “oráculo”)
Permaneceu – radio

Tenta entrar – duurdarshan (“visão distante”)
Permaneceu – TV

Fonte: Rupert Snell