Lingua Geral ou Lingua Franca é uma expressão latina para língua de contato ou língua de relação resultante do contato e comunicação entre grupos ou membros de grupos linguísticos distintos para o comércio internacional e outras interações mais extensas.

A língua geral foi falada no Brasil entre o final do século XVII e o início do século XX. Formou-se a partir da evolução histórica do tupi antigo. Dividia-se em dois ramos: a língua geral setentrional (também chamada língua geral amazônica) e a língua geral meridional (também chamada língua geral paulista). A língua geral setentrional deu origem no século XIX ao nheengatu, que ainda é falado atualmente no alto Rio Negro, na região fronteiriça entre Brasil, Venezuela e Colômbia. A língua geral é considerada extinta atualmente.

As línguas gerais

É um termo específico para determinada categoria de línguas, que surgiram na América do Sul nos séculos XVI e XVII em condições especiais de contato entre europeus e povos indígenas.

A expressão língua geral tomou um sentido bem definido no Brasil nos séculos XVII e XVIII, quando, tanto em São Paulo como no Maranhão e Pará, passou a designar as línguas de origem indígena faladas, nas respectivas províncias, por toda a população originada no cruzamento de europeus e índios tupi-guaranis (especificamente os tupis em São Paulo e os tupinambás no Maranhão e Pará), à qual se foi agregando um contingente de origem africana e contingentes de vários outros povos indígenas, incorporados ao regime colonial, em geral na qualidade de escravos ou de índios de missão.

Nos primeiros tempos da colonização portuguesa no Brasil, a língua dos índios Tupinambá (tronco Tupi) era falada em uma enorme extensão ao longo da costa atlântica. Já no século XVI, ela passou a ser aprendida pelos portugueses, que de início eram minoria diante da população indígena. Aos poucos, o uso dessa língua, chamada de Brasílica, intensificou-se e generalizou-se de tal forma que passou a ser falada por quase toda a população que integrava o sistema colonial brasileiro.

Grande parte dos colonos vinha da Europa sem mulheres e acabavam tendo filhos com índias, de modo que a Língua Brasílica era a língua materna dos seus filhos. Além disso, as missões jesuítas incorporaram essa língua como instrumento de catequização indígena. O padre José de Anchieta publicou uma gramática, em 1595, intitulada Arte de Gramática da Língua mais usada na Costa do Brasil. Em 1618, publicou-se o primeiro Catecismo na Língua Brasílica. Um manuscrito de 1621 contém o dicionário dos jesuítas, Vocabulário na Língua Brasílica.

A partir da segunda metade do século XVII, essa língua, já bastante modificada pelo uso corrente de índios missionados e não-índios, passou a ser conhecida pelo nome Língua Geral. Mas é preciso distinguir duas Línguas Gerais no Brasil-Colônia: a paulista e a amazônica. Foi a primeira delas que deixou fortes marcas no vocabulário popular brasileiro ainda hoje usado (nomes de coisas, lugares, animais, alimentos etc.) e que leva muita gente a imaginar que “a língua dos índios é (apenas) o Tupi”.

Língua geral paulista

A Língua Geral paulista teve sua origem na língua dos índios Tupi de São Vicente e do alto rio Tietê, a qual diferia um pouco da dos Tupinambá. No século XVII, era falada pelos exploradores dos sertões conhecidos como bandeirantes. Por intermédio deles, a Língua Geral paulista penetrou em áreas jamais alcançadas pelos índios tupi-guarani, influenciando a linguagem corriqueira de brasileiros.

O grupo de colonos desembarcados por Martim Afonso de Souza em São Vicente era integrado exclusivamente por homens. Somente em 1537 chegou o primeiro casal português a São Vicente (Madre de Deus [1797] 1975: 63-64). Mesmo com a chegada subsequente de outros casais, ou com a chamada das esposas portuguesas por alguns colonos, o afluxo maior continuou sendo de homens sós, que passavam a viver com mulheres indígenas.

Dessa situação resultou uma população mestiça cuja língua materna era o tupi das mães e também de toda a parentela, já que do lado dos pais em geral não havia parentes consanguíneos. Falava-se correntemente a língua original indígena e apenas o marido e, a partir de certa idade, os filhos homens eram bilíngues em português (com domínio pleno desta língua se eram portugueses, com domínio provavelmente restrito em diferentes graus quando eram mamelucos. Por muito mais de cem anos continuou o idioma das primeiras mães a ser a língua dos paulistas.

O guarani criollo

Entre os rios Paraná e Paraguai, porém, fora das reduções jesuíticas e já antes delas, desenvolveu-se uma situação de contato entre colonos espanhóis, predominantemente homens, e índios guaranis, bastante semelhante à que se produziria em São Paulo, com o surgimento de uma crescente população mestiça cuja língua materna era o guarani e não o espanhol.

Nessa situação, o guarani indígena se transformou pouco a pouco na língua comum (geral) aos mestiços (mancebos de la tierra), aos espanhóis aí estabelecidos e aos índios, guaranis ou não, incorporados às atividades coloniais.

Esta língua geral é hoje o guarani criollo (GNC), chamado na própria língua de avañe?en (‘língua de gente, língua de índio’) e, com referência às variedades mais marcadas por empréstimos e decalques do espanhol, jopará (‘mistura, mescla’); mais geralmente, porém, guarani paraguayo e, na Argentina, com apenas pequenas divergências dialetais, guarani correntino (do topônimo Corrientes) e guarani goyano (do topônimo Goya).

A língua geral amazônica

Essa Língua Geral desenvolveu-se inicialmente no Maranhão e no Pará, a partir do Tupinambá, nos séculos XVII e XVIII. Até o século XIX, ela foi veículo da catequese e da ação social e política portuguesa e luso-brasileira. Desde o final do século XIX, a Língua Geral amazônica passou a ser conhecida, também, pelo nome Nheengatu (ie’engatú = “língua boa”).

Apesar de suas muitas transformações, o Nheengatu continua sendo falado nos dias de hoje, especialmente na bacia do rio Negro (rios Uaupés e Içana). Além de ser a língua materna da população cabocla, mantém o caráter de língua de comunicação entre índios e não-índios, ou entre índios de diferentes línguas. Constitui, ainda, um instrumento de afirmação étnica dos povos que perderam suas línguas, como os Baré, os Arapaço e outros.

Na ocupação do Maranhão, do Pará e da Amazônia pelos portugueses, reproduziu-se em linhas gerais a situação que caracterizou a relação entre portugueses e tupis em São Paulo. A forte interação dos colonos e soldados portugueses com os tupinambás levou ao surgimento de uma população mestiça, inicialmente de pais europeus e mães indígenas, cuja língua ficou sendo a das mães.

A partir da segunda metade do século XIX passou a ser chamada também de nheengatu, nome introduzido na literatura por Couto de Magalhães (1876), que também a rotulou de “língua tupi viva”; Tastevin (1910) chamou-a também de “língua tapïhïya” (tapy’ýja ‘índio, tapuio’). Pelos missionários franciscanos do século XVIII foi chamada não só língua geral, mas também brasiliano (Edelweiss 1969: 109ss.). Na Colômbia e na Venezuela é chamada “lengua yeral”, nome em que se baseou a sigla YRL para a LGA no catálogo de línguas do mundo organizado por B. Grimes (1992).

Leia também: Língua Geral: Uma parte importante da história da Língua Portuguesa

Referências:

RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. In: As línguas gerais sul-americanas.

Links:

O último refúgio da língua geral no Brasil
A Língua Geral Paulista e o “Vocabulário Elementar da Língua Geral Brasílica”