Vem de gorja, sinônimo desusado de garganta, de onde proveio também o gorjeio dos pássaros. A gorjeta era uma pequena quantia que se dava a quem tivesse realizado trabalho extenuante e cansativo, a fim de que ele comprasse uma bebida para molhar a garganta. Embora hoje a gorjeta tenha perdido essa destinação líquida, percebe-se ainda um vestígio desse antigo hábito em expressões do tipo “para um cafezinho”, “para uma cervejinha”, que pronunciamos sem pensar quando gratificamos alguém. Não é por acaso que gorjeta, em francês, é pourboire, literalmente “para beber”.

A etimologia não é disciplina da filosofia moral, mas pode lançar alguma luz sobre a questão.

A ideia da gorjeta é a de oferecer um “agrado” em forma de dinheiro para uma pessoa que prestou um serviço, e o fez de modo generoso. Quem a dá tem a intenção de manifestar gratidão e, em geral, fica com a expectativa de que numa próxima oportunidade o “agraciado” terá ainda maior disponibilidade para prestar aquele mesmo serviço.

A palavra se registrava em português no século XVIII na forma de “gurgeta“, o que evidencia com mais clareza sua ligação com o latim gurges (“goela”, “garganta”) e seu parentesco, por exemplo, com “regurgitar” (ato de expelir algo pela garganta).

O sufixo -eta (que forma diminutivos) pode ter a ver com a quantidade daquela gratificação espontânea. A gorjeta é um valor pequeno que serviria apenas para “molhar” a garganta (ou a mão, que ficará mais ágil para fazer alguma coisa) de alguém (do garçom, do entregador de malas, do taxista, do manobrista, do engraxate etc.), “incentivando” um serviço “diferenciado”, ou providenciando pequenos privilégios futuros.

Antes de se tornar uma quantia de dinheiro, a gorjeta era um copo d’água ou um gole de café ou de outra bebida, algo feito por generosidade, um gesto de humanidade. Por isso ainda usamos expressões como “cafezinho” ou “cervejinha” para indicar o suposto destino que aquele “dinheirinho” extra terá ou deveria ter. Em francês, gorjeta é pourboire (literalmente, “para beber”); em alemão, é Trinkgeld (“dinheiro ou troco para beber”); em espanhol, é propina (remetendo ao latim propinare, “dar de beber”).

A palavra propina em nossa língua ganhou conotações negativas. Em italiano, gorjeta é mancia, em referência à manga da túnica que cobria a mão na hora de dar a “caixinha” discretamente, como se fosse uma ação meio vergonhosa.

O fato é que a cultura da gorjeta ganhou espaço e tradição em boa parte do mundo. Muitos já contam com essa “doação”, que pode ser incorporada como algo normal (a taxa de serviço nos restaurantes), ajudando o profissional a reforçar o seu salário.

Por Gabriel Perissé, em Palavras e Origens