Este artigo faz parte da série As Regras Fundamentais do Esperanto. Estas regras dizem respeito a características próprias do Esperanto.

Palavras Internacionais

Desde seu início, o Esperanto foi planejado com um conjunto de palavras que possibilita para o falante – esteja ele no nível mais básico ou em um nível mais avançado – uma comunicação igualitária. Além de ser à prova de dialetos, ele também não estabelece hierarquias, bem como ultrapassa fronteiras.

Não há um Esperanto utilizado para quem se situa em classe mais alta ou mais baixa da sociedade, como acontece em algumas culturas. Não há um Esperanto falado ao modo de determinado povo, que fala determinada língua.

Este nivelamento igualitário é importante e está ligado aos valores que são transmitidos ao mesmo tempo em que se aprende a língua. Na cidade francesa de Boulogne-sur-Mèr, por ocasião do Primeiro Congresso Mundial, em 1905, Zamenhof, em seu discurso, declamou que não estavam presentes na solenidade russos com poloneses, ou franceses com ingleses, mas Seres Humanos com Seres Humanos.

Há palavras de origens variadas, de línguas e culturas de diversos grupos humanos. O vocabulário dessa língua, embora composto principalmente de palavras que vêm das línguas latinas e germânicas, contempla também termos de origem grega, eslava, assim como de outros povos, como o finlandês, o lituano, o árabe, o hebreu, e, particularmente, o asiático e o africano, no que diz respeito à gramática e estrutura linguística.

Na língua todos esses povos se encontram. Nela podemos verificar as palavras que são familiares para nós, que falamos português, por serem parecidas com aquelas que usamos ou com outras de línguas próximas à nossa.

Por outro lado, há palavras não identificas facilmente, pelo fato de serem mais próximas às línguas de outros povos do planeta. Afinal de contas, o Esperanto não poderia ter sido planejado apenas para falantes de língua portuguesa, e sim para o mundo inteiro. Por isso, todos são acolhidos por meio de uma língua que não é nacional, não é estrangeira, mas internacional.

Atualmente, apesar do vocabulário do Esperanto ter se expandido e evoluído por meio do arcabouço linguístico e cultural de povos diversos – ele também evolui, mas diferentemente das línguas nacionais, essa evolução não ocorre por acaso, de maneira aleatória – ele conserva suas características de mais de 125 anos, ou seja, desde a época de seu nascimento. Um texto nessa língua dessa época pode ser lido hoje com a mesma facilidade.

A língua proposta por Zamenhof proporciona um pensamento mais livre com relação à cultura internacional. Suas regras permitem liberdade para que o falante possa usar e abusar dos recursos da língua para exprimir as mais diversas nuances comunicativas.

Ela também é uma excelente fonte de compartilhamento das mais belas obras da literatura universal. Zamenhof traduziu, entre muitas obras, Hamlet, de Shakespeare, e outras de autores renomados, como Goethe, Dickens, Schiller, Molière, Gogol, além de ter sua própria produção, como muitos autores de nossa época. Ele acreditava que uma língua não deveria ser capaz apenas de comunicar, mas também de expor a mesma beleza aos leitores que se satisfazem por meio da literatura de uma bela obra.

Livros originais e traduzidos, de várias partes do mundo, encontram-se disponíveis hoje para deleite de leitores. Muitos deles podem ser encontrados na rede internacional de computadores. O Esperanto compartilha a cultura internacional.

A Língua Internacional atua como ponte sólida e segura para a tradução dos mais diversos tipos de textos, diferentemente da ponte pênsil enfrentada por tradutores e intérpretes nos dias atuais.

Com todas essas características, caso uma palavra não exista no vocabulário, se ela não pode ser formada a partir das palavras já existentes, pode-se adaptar uma ideia que circula internacionalmente. Ela se mantém praticamente sem alteração, seguindo apenas a ortografia da Língua Internacional. Zamenhof menciona diversas “palavras internacionais” no Unua Libro (Primeiro Livro).

Tomemos como exemplo a palavra “telefone”, considera como uma palavra internacional, pois é possível encontrá-la em diversas línguas. Seu sentido principal, entretanto, permanece em todas as línguas. Naturalmente, o Esperanto adaptou essa palavra, possibilitando a criação de outras palavras com a mesma raiz.

TELEFONO = telefone (singular)

TELEFONOJ = telefone (plural)

TELEFONA = telefônico; telefônica

TELEFONE = telefonicamente

TELEFONI =telefonar (verbo no modo infinitivo)

TELEFONAS = telefonar (verbo no tempo presente)

TELEFONIS = telefonar (verbo no tempo passado)

TELEFONOS = telefonar (verbo no tempo futuro)

TELEFONUS = telefonar (verbo no modo condicional

TELEFONU = telefonar (verbo no modo imperativo)

Podem-se, portanto, criar a partir do sentido principal, no mínimo dez palavras.

Graças a essa regra, a língua pode se autossustentar. A ciência e a tecnologia podem criar quantas palavras novas quiserem. O Esperanto sempre será capaz de absorvê-las. Zamenhof, durante o planejamento e criação da Língua Internacional, já havia previsto que ela deveria acompanhar a marcha do tempo para permanecer viva e atuante na divulgação do conhecimento.

Na época em que ele viveu, não existia computador ou rede de computadores (a internet). Porém, a própria língua já possuía recursos tão sofisticados quanto os mais modernos computadores atuais para criar expressões, possuindo atualmente um rico vocabulário de termos de informática. Já no passado, na época da invenção desse aparelho utilizava-se a palavra KOMPUTILO.Um termo bastante comum para a geração atual, pertencente à linguagem da informática (INFORMADIKO). Vejamos outros exemplos:

RETO = Rede
INTERRETO = Rede Internacional (Internet)
RETPAĜARO = Página da rede
RETADRESO = Endereço eletrônico
RETALIRO = Acesso à rede

KOMPUTI = Computar
KOMPUTILO = Computador
KOMPUTILA = Computacional
KOMPUTILISTO = Profissional que trabalha com computadores.

O Esperanto é uma língua viva e se atualiza, evoluindo continuamente!

Observação

Essa regra deve ser utilizada apenas se a palavra não existir. O conjunto de palavras da língua resistiu ao tempo. Não faz sentido criar novas sem que haja real necessidade, se na própria língua é possível formá-las. Eis alguns exemplos:

INSUL + AR + O = (Ilha + Coletivo, conjunto + terminação do substantivo)
INSULARO = Arquipélago (conjunto de ilhas)

SAN + IG + IL + O = (Saúde + tornar + instrumento + terminação do substantivo)
SANIGILO = Remédio (Instrumento para tornar saudável)

Portanto:

As palavras internacionais, que a maioria das línguas retirou de uma única fonte, não têm alteração. É possível formar a partir delas diversas outras, de acordo com a ortografia e gramática do Esperanto.

As palavras incorporadas convivem em total harmonia. Mesmo as novas, cuja contribuição vem do próprio desenvolvimento humano, também têm espaço na língua. Essa mensagem, transmitida por ela, pode ser aplicada em nossa sociedade a fim de que seja mais unida, respeitando o ser humano independente do seu país, da sua cultura, e da sua etnia.

Todos nós podemos nos comunicar melhor por meio desse maravilhoso instrumento. Por ser esta a língua da amizade, o ato de falar Esperanto pode ser comparado a um gesto fraterno, um verdadeiro “abraço linguístico”.